Todo outubro, o país fala sobre câncer de mama. Fala sobre rastreamento, sobre diagnóstico precoce, sobre acesso ao tratamento. São conversas necessárias e que salvam vidas.
Existe, porém, uma parte dessa história que raramente aparece nas campanhas — e que interessa diretamente a quem está em tratamento, a quem já terminou e a quem acompanha alguém nessa situação.
É a relação entre tratamento oncológico e saúde do coração.
Uma consequência do próprio avanço da medicina
Para entender por que esse assunto ganhou importância, é preciso começar por uma boa notícia.
Os tratamentos oncológicos evoluíram muito nas últimas décadas. Mais pessoas sobrevivem ao câncer, e sobrevivem por mais tempo.
A I Diretriz Brasileira de Cardio-Oncologia, publicada em conjunto pela Sociedade Brasileira de Cardiologia e pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, descreve exatamente essa mudança de cenário: o paciente oncológico passou a ser visto como portador de uma doença crônica, que ao longo de sua evolução pode apresentar descompensações — inclusive cardiovasculares.
Em outras palavras: quando as pessoas passaram a viver muito mais tempo depois do diagnóstico, os efeitos de longo prazo do tratamento passaram a importar de um jeito que antes não importava.
Foi disso que nasceu a cardio-oncologia.
O que é cardiotoxicidade
Cardiotoxicidade é o nome dado ao efeito que determinados tratamentos oncológicos podem ter sobre o funcionamento do coração.
O parâmetro mais utilizado para avaliá-la é a função de bombeamento do ventrículo esquerdo — a fração de ejeção —, medida principalmente pelo ecocardiograma. Quando essa função se reduz de forma significativa em relação ao valor observado antes do início do tratamento, a equipe médica tem um sinal objetivo para agir.
Dois esclarecimentos importantes, porque este é um assunto que gera ansiedade com facilidade.
O primeiro: nem todo tratamento oncológico apresenta esse risco. Ele varia conforme o esquema terapêutico, a dose acumulada, a associação entre medicamentos e as condições prévias de cada pessoa.
O segundo, e talvez o mais importante: identificar risco cardiovascular não significa interromper o tratamento do câncer. A própria diretriz brasileira coloca entre suas metas explícitas justamente desmistificar a visão da doença cardíaca como barreira ao tratamento efetivo do paciente oncológico. O objetivo do acompanhamento é permitir que o tratamento aconteça com segurança, não impedi-lo.
O que a diretriz recomenda
A Diretriz Brasileira de Cardio-oncologia de 2020, publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, atualizou as recomendações da primeira versão, de 2011, e consolidou o campo.
Entre as recomendações está a realização de ecocardiograma transtorácico com Doppler colorido na avaliação inicial e de forma seriada ao longo do tratamento, conforme o regime terapêutico, com análise da fração de ejeção do ventrículo esquerdo, da função diastólica e da deformação miocárdica.
A diretriz também recomenda a colaboração entre cardiologistas, oncologistas e hematologistas para assegurar tratamento adequado e benéfico aos pacientes com câncer.
Há ainda um ponto que vale destacar, e que aparece já na diretriz pediátrica publicada pela SBC: a orientação de que todos os pacientes sejam informados, antes do início do tratamento, sobre os riscos de cardiotoxicidade, sobre a necessidade de acompanhamento a longo prazo e sobre a importância de manter hábitos que protejam a saúde cardiovascular.
Ou seja: informar o paciente não é um detalhe do processo. É parte da recomendação.
Sinais que valem ser relatados à equipe
Além dos exames, existe uma camada de acompanhamento que depende da própria pessoa: perceber e relatar mudanças.
A diretriz brasileira aponta que a cardiotoxicidade pode ser identificada pela análise dos fatores de risco, pela monitorização de sinais e sintomas durante e após o tratamento e pela avaliação contínua por exames complementares — o que permite identificação precoce e intervenção em tempo hábil.
Na prática, isso significa que vale comunicar à equipe médica se surgirem coisas como falta de ar em situações que antes não causavam, inchaço nas pernas ou nos pés, sensação de coração acelerado ou batendo de forma irregular, cansaço desproporcional ao esforço realizado, ou tontura ao levantar.
Nenhum desses sintomas, isoladamente, significa que existe um problema cardíaco. Vários deles são comuns durante tratamentos oncológicos e podem ter outras explicações. Mas todos são o tipo de informação que a equipe precisa ter para avaliar — e que costuma ser omitida justamente por parecer pequena perto de tudo o mais que está acontecendo.
Relatar não é reclamar. É dar dado à equipe.
Por que isso importa especialmente no Outubro Rosa
Porque o câncer de mama é o mais incidente entre as mulheres brasileiras — e porque um número expressivo de pessoas passa por esses tratamentos todos os anos.
De acordo com o INCA, a publicação *Estimativa 2026–2028: Incidência de Câncer no Brasil*, divulgada em fevereiro de 2026, projeta cerca de 78.610 novos casos de câncer de mama por ano em cada ano do triênio, com risco estimado de 71,57 casos a cada 100 mil mulheres. A mesma estimativa aponta o Sudeste como a região de maior risco, com 88,29 casos por 100 mil mulheres.
O levantamento projeta ainda 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil no triênio, ou 518 mil quando excluídos os tumores de pele não melanoma, sendo os cânceres de mama feminina e de próstata os mais frequentes, respondendo cada um por aproximadamente 15% das novas ocorrências.
São muitas pessoas para quem essa conversa sobre coração é diretamente relevante.
O que fazer com essa informação
Se você está em tratamento oncológico, ou vai iniciar um, a conduta prática é simples: converse com a sua equipe. Pergunte se o seu esquema de tratamento tem potencial de afetar o coração e se há indicação de avaliação cardiológica antes ou durante.
Se você já terminou o tratamento, a pergunta é sobre o seguimento: existe recomendação de acompanhamento cardiovascular de longo prazo no seu caso?
Se você acompanha alguém, talvez o papel mais útil seja lembrar dessa pergunta em uma consulta — porque quem está no meio de um tratamento oncológico tem muitas outras coisas ocupando a cabeça.
Em todos os casos, vale a mesma ressalva que atravessa qualquer conteúdo de saúde: a indicação de exames e de acompanhamento depende sempre da avaliação da equipe médica que conhece o caso. Este texto não substitui essa conversa — ele existe para que ela aconteça.
Uma última observação
O Outubro Rosa nasceu para chamar atenção ao diagnóstico precoce, e essa continua sendo a sua função central.
Mas o mês também pode servir para ampliar a conversa sobre o que vem depois do diagnóstico. Sobreviver ao câncer é o objetivo — e cuidar de quem sobrevive, com todos os sistemas do corpo em vista, é a continuação natural desse mesmo cuidado.
O ecocardiograma está entre os exames realizados no IMC Tatuí, junto com eletrocardiograma, MAPA 24h, Holter 24h, teste ergométrico e cintilografia. Se o seu médico solicitou uma avaliação cardiológica, fale com a nossa equipe pelo WhatsApp — (15) 3451-1300 — ou acesse imctatui.com/pacientes/exames.